Clientes de planos de saúde enfrentam problemas semelhantes ao SUS
Marinella Castro - Estado de Minas
Publicação: 22/03/2010 06:17
Nas salas de urgência e emergência dos hospitais de Belo Horizonte, os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) não são os únicos a esperar horas a fio por uma consulta médica. A rede particular está superlotada e o consumidor, que chega a pagar R$ 500 ou mais pela mensalidade de um plano de saúde, na expectativa de ter atendimento médico mais ágil, nem sempre percebe o retorno do investimento. Em alguns casos, a espera em filas dos hospitais privados chega a ultrapassar seis horas – e há casos de um dia inteiro. Na antessala, o que se vê são pacientes nervosos e familiares indignados. O problema se tornou tão crônico que o sistema particular já está lançando mão de procedimentos próprios da rede pública, como a triagem de pacientes.
A expectativa é que a procura pelas urgências cresça ainda mais nos próximos dias, já que, de março a junho, historicamente, a demanda na saúde chega a crescer 40%, em função da mudança do clima. Epidemias sazonais como dengue são outro agravante. Os hospitais particulares admitem que a superlotação passou a ser um desafio também para o sistema de saúde suplementar.
A reportagem do Estado de Minas percorreu hospitais de Belo Horizonte e constatou que a reclamação de pacientes, como a cuidadora de idosos Ana Aparecida Duarte, atinge de forma mais ou menos grave grande parte do sistema. Há seis anos, ela contratou um plano de saúde, mas não conseguiu usar o serviço. Com suspeita de ter contraído a dengue pela segunda vez, tentou ir a um consultório médico. “Não consegui. Para marcar um clínico, é preciso aguardar de 15 dias a um mês, e eu estava me sentindo muito mal ”, diz.
No pronto-atendimento privado da Santa Casa Saúde, não foi diferente. Depois de ficar a metade do dia esperando, Ana desistiu. “Passei por uma triagem e cansei de esperar. Acabei indo para o SUS. Lá consegui ser atendida com mais rapidez. Pela rede pública, fiz a consulta e todos os exames. Constataram que, de fato, eu estava com a doença”, conta, indignada. O analista de crédito Thiago Oliveira também está com dengue e, no mesmo local, chegou a passar um dia inteiro aguardando sua vez. “É claro que não estou correndo risco de morrer, mas estou com muita dor. Acho um absurdo esta demora. Se atrasamos um dia a mensalidade, eles cancelam o atendimento”, aponta o consumidor, que paga mais de R$ 600 para a família de três pessoas.
O ex-presidente da Associação Mineira dos Hospitais de Minas Gerais e atual presidente do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Estudos do Setor de Saúde (Ibdees), Carlos Eduardo Ferreira, afirma que o problema é real e que a demora na rede privada, tão longa quanto na rede pública, está sendo tema de discussão no Instituto, que representa tanto os hospitais quanto os demais setores da saúde suplementar.
Aguardando há duas horas no pronto-atendimento do Hospital Felício Rocho pela internação da mãe Maria Isabel, que precisava retirar um cateter, a cabeleireira Vânia Barbosa Vieira já havia passado também pelo Hospital Semper. A aposentada paga uma mensalidade equivalente a R$ 720, mas sempre que precisa ir à urgência se prepara para esperar. Na opinião de Vânia, o sistema de triagem deixou a espera ainda mais longa. “Quando chega a nossa vez, o atendimento é bom. O duro é esta demora”, diz.
Por meio de sua assessoria, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) diz que a questão é complexa, envolvendo diversos fatores – entre eles, o grande número de planos que pode ser atendido por um mesmo hospital. O presidente do Ibdees tem opinião diferente. Segundo Ferreira, a falta de investimentos e baixa remuneração aos hospitais, tanto do SUS quanto dos planos de saúde, causaram um desestímulo e a rede hospitalar encolheu com o fechamento de diversas entidades – o que explicaria a superlotação. “A média de idade dos hospitais é de 40 anos de vida”, diz. Para completar, o sistema sofre com problemas típicos do SUS. “Hospitais privados do interior enviam seus pacientes para Belo Horizonte. É preciso encontrar uma solução conjunta, o que inclui a remuneração dos planos de saúde e também organização e gestão”, defende.
Para se proteger da demora, os usuários de planos de saúde têm uma saída. Segundo o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), o paciente pode realizar a consulta fora de sua rede credenciada e depois pedir o reembolso. “Se o caso for para internação, pode pedir na Justiça uma liminar para o procedimento imediato”, explica Juliana Ferreira, advogada do Instituto. O coordenador do Procon Assembleia, Marcelo Barbosa, diz que, se houver danos à saúde do consumidor, tanto a operadora quanto o poder público podem ser responsabilizados. “O grande e melhor plano de saúde do país deveria ser o SUS”, garante.
A expectativa é que a procura pelas urgências cresça ainda mais nos próximos dias, já que, de março a junho, historicamente, a demanda na saúde chega a crescer 40%, em função da mudança do clima. Epidemias sazonais como dengue são outro agravante. Os hospitais particulares admitem que a superlotação passou a ser um desafio também para o sistema de saúde suplementar.
A reportagem do Estado de Minas percorreu hospitais de Belo Horizonte e constatou que a reclamação de pacientes, como a cuidadora de idosos Ana Aparecida Duarte, atinge de forma mais ou menos grave grande parte do sistema. Há seis anos, ela contratou um plano de saúde, mas não conseguiu usar o serviço. Com suspeita de ter contraído a dengue pela segunda vez, tentou ir a um consultório médico. “Não consegui. Para marcar um clínico, é preciso aguardar de 15 dias a um mês, e eu estava me sentindo muito mal ”, diz.
No pronto-atendimento privado da Santa Casa Saúde, não foi diferente. Depois de ficar a metade do dia esperando, Ana desistiu. “Passei por uma triagem e cansei de esperar. Acabei indo para o SUS. Lá consegui ser atendida com mais rapidez. Pela rede pública, fiz a consulta e todos os exames. Constataram que, de fato, eu estava com a doença”, conta, indignada. O analista de crédito Thiago Oliveira também está com dengue e, no mesmo local, chegou a passar um dia inteiro aguardando sua vez. “É claro que não estou correndo risco de morrer, mas estou com muita dor. Acho um absurdo esta demora. Se atrasamos um dia a mensalidade, eles cancelam o atendimento”, aponta o consumidor, que paga mais de R$ 600 para a família de três pessoas.
O ex-presidente da Associação Mineira dos Hospitais de Minas Gerais e atual presidente do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Estudos do Setor de Saúde (Ibdees), Carlos Eduardo Ferreira, afirma que o problema é real e que a demora na rede privada, tão longa quanto na rede pública, está sendo tema de discussão no Instituto, que representa tanto os hospitais quanto os demais setores da saúde suplementar.
Aguardando há duas horas no pronto-atendimento do Hospital Felício Rocho pela internação da mãe Maria Isabel, que precisava retirar um cateter, a cabeleireira Vânia Barbosa Vieira já havia passado também pelo Hospital Semper. A aposentada paga uma mensalidade equivalente a R$ 720, mas sempre que precisa ir à urgência se prepara para esperar. Na opinião de Vânia, o sistema de triagem deixou a espera ainda mais longa. “Quando chega a nossa vez, o atendimento é bom. O duro é esta demora”, diz.
Por meio de sua assessoria, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) diz que a questão é complexa, envolvendo diversos fatores – entre eles, o grande número de planos que pode ser atendido por um mesmo hospital. O presidente do Ibdees tem opinião diferente. Segundo Ferreira, a falta de investimentos e baixa remuneração aos hospitais, tanto do SUS quanto dos planos de saúde, causaram um desestímulo e a rede hospitalar encolheu com o fechamento de diversas entidades – o que explicaria a superlotação. “A média de idade dos hospitais é de 40 anos de vida”, diz. Para completar, o sistema sofre com problemas típicos do SUS. “Hospitais privados do interior enviam seus pacientes para Belo Horizonte. É preciso encontrar uma solução conjunta, o que inclui a remuneração dos planos de saúde e também organização e gestão”, defende.
Para se proteger da demora, os usuários de planos de saúde têm uma saída. Segundo o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), o paciente pode realizar a consulta fora de sua rede credenciada e depois pedir o reembolso. “Se o caso for para internação, pode pedir na Justiça uma liminar para o procedimento imediato”, explica Juliana Ferreira, advogada do Instituto. O coordenador do Procon Assembleia, Marcelo Barbosa, diz que, se houver danos à saúde do consumidor, tanto a operadora quanto o poder público podem ser responsabilizados. “O grande e melhor plano de saúde do país deveria ser o SUS”, garante.
Vejo aí um triângulo – e triângulos postados no caminho nem sempre são um sinal de que tudo vai bem – constituído do tripé Elevada Mensalidade pagas aos Planos contrapondo-se à Baixa Remuneração para aos Hospitais pelos Planos, agravados pela Falta de Interiorização da Gestão.
ResponderExcluirSabedores que o usuário que procura o serviço de saúde através de um Plano paga, com freqüência, até R$700,00 ou mais por mês, o profissional da saúde ou o estabelecimento que o atende através do Plano sentem-se desestimulados pelos valores extremamente baixos que recebem pelos serviços prestados, embora sejam eles a razão de ser do próprio plano, que, em sua maioria, não existiriam se não existissem os prestadores. Se praticada a economia de escala, os planos teriam talvez uma rentabilidade maior em virtude da satisfação de seus filiados no atendimento mais rápido e de um maior número de vidas se o repasse ao prestador fosse maior. Sua margem diminuiria, mas sua rentabilidade aumentaria em virtude do ganhar pouco em muito, ao invés de ganhar muito em pouco. Para cobrir os riscos de prejuízos com casos extraordinários, os planos poderiam recorrer aos seguros para cobrir despesas que se situassem muito acima do nosso PIB per capita por paciente, ou usar outras alternativas a serem estudadas. Quanto à terceira solução – Interiorização da Gestão – esta sim é imprescindível para cortar o fluxo de pacientes em demanda da capital, em busca de tratamentos a que não têm acesso em nosso interior, como foi muito bem colocado pelo presidente do Ibedess. Este último item conheço bem, pois há muito realizo uma verdadeira cruzada na tentativa de interiorização da Gestão. E aí, sempre nos deparamos com o chiasmo: Os pequenos e médios hospitais não dão a devida atenção ao aprimoramento da gestão porque são pequenos, ou são pequenos porque não dão atenção à gestão?
Carlos Foscolo
No último sábado (dia 24/04/2010) fui testemunha do fato (e de coisas piores) descrito pelo jornal. Sou usuária do plano de saúde Santa Casa Ouro e na data mencionada fui ao pronto atendimento do Hospital São Lucas com sintomas de uma virose (vômitos, diarreia e febre). Entre ser atendida e medicada foram-se quatro horas. Isso porque muita gente que estava na frente, para minha sorte, desistiu. Fui testemunha e vítima de vários absurdos. Descrevo alguns: 1 – sala de espera superlotada, sem acomodação para muitos que permanecerem de pé. 2 – Sistema de computadores pouco confiável, que passa muito tempo fora do ar. 3 – Funcionários estressados e mal humorados em função das reclamações. 4 – Poucos médicos (no dia eram apenas dois) nas especialidades mais procuradas. 5 – Médicos que atendem fora de suas especialidades (que foi o meu caso). Pedi uma consulta com um Cínico Geral e fui atendida por um jovem Urologista (???!!!). Ele nem mesmo chegou a medir minha pressão arterial ou olhar minha língua para ver se eu estava desidratada. Mandou que me aplicassem o coquetel básico para quem está com virose (Profenid+dipirona+Plasil+ranitidina em 100 ml de soro) e me mandou embora. Esperar faz parte de qualquer emergência, mas ser atendida por um médico fora de sua especialidade é absurdo, ou melhor, é abuso dos hospitais.
ResponderExcluirLuzia Lobato - jornalista